estou de mudanças

•6 de Janeiro de 2012 • Deixe um Comentário
…estou-me a mudar do WordPress para o Tumblr. só quando começas a arrumar as coisas é que te dás conta do passar do tempo que se acumula na estante, no armário, em cima da mesa. vai ser difícil. mas sempre achei que as mudanças são boas. o ano novo ajuda a ganhar balanço.

a partir de agora a kukiela te conta coisas a partir desde este tumblr.

a casa nova: http://kukiela.tumblr.com/

“num mapa dobrado para ti…”

•1 de Janeiro de 2012 • Deixe um Comentário

A terra que te ofereço

1

Quando,
ansiosa,
pela primeira vez
pisares
a terra que te ofereço,
estarei presente
para auscultar,
no ar,
a viração suave do encontro
da lua que transportas
com a sólida
a materna nudez do horizonte.

Quando,
ansioso,
te vir a caminhar
no chão de minha oferta,
coloco,
brandamente,
em tuas mãos,
uma quinda de mel
colhido em tardes quentes
de irreversível
votação ao Sul.

2

Trago
para ti
em cada mão
aberta,
os frutos mais recentes
desse Outono
que te ofereço verde:
o mês mais farto de óleos
e ternura avulsa.
E dou-te a mão
para que possas
ver,
mais confiante,
a vastidão
sonora
de uma aurora
elaborada em espera
e refletida
na rápida torrente
que se mede em cor.

3

Num mapa
desdobrado para ti,
eu marcarei
as rotas
que sei já
e quero dar-te:
o deslizar de um gesto,
a esteira fumegante
de um archote
aceso,
um tracejar
vermelho
de pés nus,
um corredor aberto
na savana,
um navegável
mar de plasma
quente.

	(A decisão da idade)

descobertas musicais de 2011 – parte 2

•26 de Dezembro de 2011 • Deixe um Comentário

Imagem“Hongo Calling” do camaronês Blick Bassy foi outra das descobertas bem bonitas deste ano. adorei surpreender-me com esse “você fala português?” na voz do Lenine, adorei essa ponte com o Brasil, essa batucada, esses arranjos bem juntinho ao ouvido, essa guitarra e essa voz africana linda que tem o Blick Bassy, toda assim macia tipo sumauma. Blick reconheceu um dos seus ritmos tradicionais, o hongo, nos ritmos de Cabo-Verde e do Brasil, uma vez mais comprovando o vai-vem das claves africanas. então ele quis fazer o reencontro e foi lá no Brasil gravar o seu “Hongo Calling”, com Marcos Suzano nas percussões e a participação do Lenine. é mesmo um disco cheio até acima de ritmos, de claves, de palmas, de batuques, de chocalhos, areias, sementes e raízes. podes ver mais aqui neste video.

mais que recomendado, é daqueles álbuns que gostamos de ouvir muitas vezes até saber os arranjos de cor, a música que vem a seguir. esses sons ficaram na nossa memória musical de 2011 como os desenhos na pele dele, nessa capa tão bonita. maravilha de descoberta.

descobertas musicais de 2011 – parte 1

•26 de Dezembro de 2011 • Deixe um Comentário

Imagem“Canções de Apartamento” do Cícero. é fácil entender porquê quando ouvimos no primeiro tema do disco, chamado “Tempo de Pipas”, versos como…

“eu vou te acompanhar de pipa

te ajudo a decorar os dias

te empresto minha neblina

vamos nos espalhar sem linhas

ver o mundo girar de cima

no tempo da preguiça…” 

aí a gente entende. entende quando ouve a voz bem baixinha e quase rouca do Cícero, voz que arranha um pouco, que vem desse nó na garganta, dessas canções do seu apartamento. a gente entende mais ainda quando escuta outros versos como este…

“nem sei dessa gente toda, dessa pressa tanta, desses dias cheios, meios dias gastos, elefantes brancos, vagalumes cegos, meio enterrados entre o meio e o fim… “

é nova música brasileira. misturinha boa das guitarras e melodias da MPB clássica com um lado mais experimental, indie e urbano. é ele, que nem imaginava o sucesso que ia ter neste 2011 quando deixou o disco para download grátis AQUI

a gente entende tudo. o público sabe entender. mais ainda quando ouve versos destes, e com estes ficamos para 2012. porque presente é descobrir música boa.

 

“ninguém vai dizer que foi por amor, todos vão chamar de derrota

vamos esconder nosso cobertor e vamos viver sem escolta”

‘Clave Bantu’ no Culturgal, a feira de cultura da Galiza.

•9 de Dezembro de 2011 • Deixe um Comentário

Um showcase é sempre um showcase, um mini-concerto, uma apresentação rápida, quase como um “speed-dating”. A nossa passagem pelo Culturgal foi assim, fugaz e intensa. Um público atento e curioso nos mirava e nos aplaudia, entre algumas caras conhecidas e muitas, a maioria, desconhecidas.  O Culturgal é uma excelente oportunidade para sair do circuito de todos-os-dias e cruzar algumas fronteiras, conhecer novas gentes, novos projectos, novos artistas e novos públicos. Aparte da apresentação de ‘Clave Bantu’, estive na apresentação do projecto do Xavier Belho, Música do Sétimo Dia. Altamente recomendável visitar a página desta belíssima galeria de vídeos onde o Xavier nos faz espreitar, feito voyeur, alguns artistas do panorama musical daqui, a interpretar algumas canções suas, em lugares inusitados, som em directo e em plano sequência.

Ceumar, Manecas Costa e Ugia Pedreira são algumas das artistas que se pode ouvir e ver. Espreita! Aqui mesmo podes ver “Rascunhos”, um dos meus temas mais antigos (parece que foi há décadas atrás…) e que vocês poderão ouvir também no disco, tocado maravilhosamente pelo maestro e amigo Sérgio Tannus.

Kukielar de novo

•2 de Dezembro de 2011 • 4 comentários

basta de silêncio: este blog renasce agora mesmo.

às vezes é preciso fazer o exercício de sair de nós e atender às nossas coordenadas na linha do tempo, “nesse jogo ponteiro-ponto”. hoje ponho-me a fazer esse exercício com calma. depois de alguns anos de letras rabiscadas em pedaços de papel, acordes quase impossíveis de bossa, a solidão de uma nova música que amanhece de repente, “Clave Bantu” está aí – o meu primeiro disco. suponho que todos os discos, em especial os primeiros, requerem muito trabalho. mas atrevo-me a dizer que uma auto-produção, um auto-financiamento e uma auto-gestão musical exige um pouco mais. não vou esconder: este disco vai sair como eu queria, com um logo Creative Commons na contra-capa. não vou mentir: este disco é um grito, uma declaração de interesses, uma confissão, um desabafo, uma declaração de amor, um acordo com a vida.

Santiago de Compostela deu-me a tranquilidade para dedicar todo o meu tempo, durante os últimos meses, à produção e à gravação desta Clave. Tive a sorte de encontrar o contrabaixista Jose Manuel Diaz, que soube entender bem o que eu queria dizer. que Angola e Cuba respiram uma mesma música, já se sabia e aqui só se confirma. o Carlinhos Freire deu-nos o chão, o ritmo para que nós arriscássemos outras notas e assim, como quem amanhece, fluiu a Clave.

não esqueço a maravilhosa letra do Agualusa, que tanto me tem apoiado, e o seu incrível dom de fazer dançar as palavras. não esqueço a inconfundível delicadeza da letra do Onjaki, e o prazer que foi colorir esse amanhecer. não esqueço a Virgínia e o Dinis que deram uma cara a este disco e desenharam essa magnífica capa, uma árvore com raízes, tronco e asas – como deve ser.

a família, os amigos, as caras estranhas que me sorriem nos concertos e me empurram para a frente, a Música mesma, um sonho a menos na gaveta dos adiamentos, o cansaço já esquecido, o descanso dentro do não saber bem o que vem a seguir, a vontade de ouvir outra vez ‘Clave Bantu’ desde Assinatura de Sal até Babel e o desejo de partilhar tudo isto com vocês…

sinceramente, algo “inteiro” se faz sentir dentro de mim agora. acho que é felicidade… 🙂

kukiela

Entrando em estúdio

•18 de Setembro de 2011 • 1 Comentário

Nestes últimos dias tenho ouvido os alguns dos discos que me marcaram. Revisitei Djavan e toda a MPB, pensando em tudo aquilo que esses gigantes da música, sejam eles interpretes, compositores, instrumentistas e produtores, tudo o que me ensinaram em tantos anos de escuta.

A música brasileira parece ter a fórmula mágica imortal da boa música, combinando o balanço simples do corpo com a complexidade quase arriscada das harmonias. Para não falar da sorte de falar português e entender as letras do Chico e o tremor justo na voz da Elis quando determinadas palavras lhe saem da voz. Quantas peles vesti, quantos choros e alegrias alheios senti, escutando e cantando tantas canções que se foram fazendo cada vez mais minhas ao longo dos anos. Assim é a música.

Nesta noite de domingo celebro a Música, que, no meio de todo o caos que pode ser uma existência, consegue dar sentido e até beleza aos traços mais duros da face humana. Pelo menos restará sempre a música como bússula no meio do caos.

Amanhã começo a gravar “Clave Bantu”, o meu primeiro disco. E não é que seja um acontecimento extraordinário… Mas marca o início de um novo ciclo, como quem muda de cidade. Quem diria que aquelas melodias que saíram da solidão nocturna de um quarto, de uma anotação num guardanapo, do verso improvável que surge numa esquina qualquer ou no rescaldo de uma dor… quem diria que tudo isso se faria música um dia?

Sem dúvida: viva a música!

Kukiela